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Nova guerra comercial pode custar caro até para quem nunca exportou nada

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Na quarta-feira passada (15), os Estados Unidos confirmaram a aplicação de um tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros, após uma investigação do USTR (Representante Comercial dos Estados Unidos)  que acusa o Brasil de “práticas desleais”.  

Segundo levantamento da CNI (Confederação Nacional da Indústria), a medida pode atingir cerca de 4 mil produtos industriais e ameaçar US$ 14,9 bilhões (quase R$ 80 bilhões) em exportações para o mercado americano. 

Se você não trabalha em uma fábrica exportadora, não vende café, aço ou suco de laranja para os Estados Unidos, a tentação é pensar: “isso não é problema meu”. No entanto, é exatamente aí que mora o erro.

Guerra comercial não fica restrita a quem exporta, ela se espalha pela economia inteira através de canais indiretos que afetam emprego, inflação, investimentos e câmbio, mesmo para quem nunca colocou um produto dentro de um contêiner. 

O impacto mais visível de uma tarifa recai sobre o exportador direto. Mas cadeias produtivas são interligadas: uma fábrica de autopeças que perde competitividade nos EUA compra menos aço, menos insumos, contrata menos e o efeito se propaga por fornecedores que nunca exportaram um parafuso sequer. 

Um estudo da FIA Business School (USP) sobre o pacote de tarifas em discussão em 2026 (25% somados a uma sobretaxa adicional de 12,5% por questões trabalhistas, colocando cerca de US$ 9,5 bilhões em exportações industriais sob pressão) projeta um impacto de 0,3 a 0,6 ponto percentual no crescimento do PIB brasileiro neste ano.

Menos crescimento significa, historicamente, menos geração de vagas, mesmo em setores sem relação direta com o comércio exterior. 

Inflação: o efeito é mais complexo do que parece 

Aqui mora uma das partes menos intuitivas do problema. No curto prazo, produtos que deixam de ser exportados podem sobrar no mercado interno e ficar mais baratos, é o que alguns economistas já observaram em itens como frutas, peixes e ovos em episódios anteriores de tarifaço. Só que esse alívio tende a ser pontual e setorial. 

Do outro lado, o mesmo estudo da FIA aponta que os efeitos indiretos via câmbio, crédito e confiança tendem a ser mais amplos e duradouros do que o choque direto do comércio, especialmente em uma economia com juros ainda elevados e famílias endividadas.

Na prática: o consumo das famílias, que somou R$ 8,1 trilhões em 2025 (64% do PIB), historicamente absorve entre 40% e 50% de choques externos desse tipo, segundo o mesmo levantamento, ou seja, o custo se dilui pelo bolso de quem consome, não só de quem exporta. 

Análises de mercado sobre o tarifaço de 2026 apontam que o episódio funciona menos como um choque uniforme de comércio e mais como um choque de incerteza, com impacto desigual entre setores. 

O mercado financeiro costuma reagir em etapas: primeiro precifica a compressão de margens e a queda de volumes das exportadoras mais expostas; depois vem o efeito indireto sobre câmbio, juros, inflação e os múltiplos das ações negociadas na bolsa.

Ou seja, mesmo empresas sem qualquer exposição direta aos EUA podem ver seu valor de mercado balançar, simplesmente porque a incerteza eleva o “prêmio de risco” exigido para investir no país como um todo. 

Câmbio: a reação mais rápida de todas 

O histórico recente já deu uma prévia do padrão. Quando Trump anunciou, em 2025, uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, o real chegou a cair 2,8% da noite para o dia, tocando a marca de R$ 5,60 pela primeira vez em semanas, uma reação típica de mercado diante de um choque de incerteza política, não econômica. 

Analistas internacionais, como Michael Pfister, da Commerzbank, destacaram na ocasião que o episódio preocupava não apenas pelo efeito direto sobre o real, mas pelo precedente: nenhum país fica imune a decisões unilaterais desse tipo. 

Como o investidor pode se posicionar diante desse cenário? 

O primeiro passo é resistir à tentação de reagir apenas ao setor mais citado nas manchetes (aço, café, suco de laranja, etc.) e olhar a exposição da carteira de forma mais ampla: empresas com receita puramente doméstica tendem a ser menos impactadas diretamente, mas nenhuma fica isolada do efeito indireto sobre juros, câmbio e confiança. 

Diversificação setorial e geográfica segue sendo a ferramenta mais concreta contra esse tipo de risco, incluindo uma parcela de proteção cambial, já que o real historicamente reage primeiro e com mais intensidade a esse tipo de notícia, antes mesmo de qualquer efeito real na economia se concretizar.

Também vale acompanhar o noticiário sobre exceções e negociações, visto que o histórico de 2025 mostra que lista de produtos isentos podem mudar significativamente o tamanho do impacto setorial. 

No fim, a lição por trás do tarifaço de 2026 é a mesma de outros choques externos. O efeito direto atinge alguns setores, mas o efeito indireto (via confiança, câmbio e custo do crédito) tem o hábito de encontrar o caminho até o bolso de quem nunca vendeu nada para fora do Brasil.